Resenha: O filho do homem, por François Mauriac

MAURIAC, François. O filho do homem. Tradução Teresa de Araujo Filho Penna. 2º ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019. 120p.

Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1952, o francês François Mauriac foi um dos maiores nomes das letras do século XX. O Filho do Homem, obra do autor que retorna agora às livrarias pela coleção Clássicos de Ouro, reúne duas das características mais marcantes de sua escrita: a religiosidade e uma sensibilidade acima da média. A nova edição conta com apresentação inédita da poetisa e crítica literária Mariana Ianelli.

Católico devoto, Mauriac deixa antever nesta obra os conflitos religiosos que marcaram quase todos os seus trabalhos. Mais especificamente, reflete sobre a vida de Jesus de maneira profunda e poética, de modo a contrastar a figura de Cristo com a nossa. Engana-se, porém, quem pensa que este livro se volta apenas para aqueles que têm fé. O Filho do Homem é um texto universal e vai agradar a todos os que prezam a boa literatura.

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Foto: Vitor Lima / Post Literal / Divulgação

RESENHA

Poderíamos catalogar este livro dentro de qualquer gênero literário com o qual o propósito fosse induzir o leitor em uma crença, mas não, este livro não tem nada a ver com proselitismo, muito pelo contrário, eu diria que a proposta de Mauriac está muito além do poder de convencimento por meio da fé. Sua escrita não pode ser definida. Geralmente eu criaria um catálogo de frases clichês dentro da narrativa desta obra, e talvez, citasse os motivos pelos quais este livro deveria ser considerado menos que sua propaganda propõe, mas a grande realidade é que me faltam palavras para descrever o quanto sua narrativa é além de sua proposta. Me faltam verbos e descrições claras de como descrever a narrativa de Mauriac. É necessário lê-lo para compreender a dimensão de suas ideias. Um livro fascinante, uma viagem inesquecível e uma proposta arrebatadora.

É incrível como eu nunca consegui entender a figura de Jesus, e mesmo assim, optei por segui-lo. É interessante o fato de eu encarar seus ensinamentos e sua história de vida sob a ótica proposta pela fé, nunca pela boca dos ímpios e daqueles que juravam ter conhecido à Cristo. Afinal, de que forma um homem pode ser Deus e homem ao mesmo tempo, mantendo sua santidade? Ele tornou-se carne, elimina toda a lógica. Sempre fomos carne, ele tornou-se, ele optou em ser semelhante a nós, e ainda assim se manteve santo. Como podemos, com se exemplo, nos achegar a Deus e ser semelhante em meio à tantos pecados, imposições e  lutas do cotidiano? Ele conseguiu. Ao se fazer carne, ele nasceu de mulher, chorou, caminhou, comeu, estudou, ajudou o pai em carpintaria, cresceu, ensinou e difundiu seus preceitos e sua fé a todo o mundo, ele pregou o evangelho com toda pureza jamais vista, tudo isso, sendo homem, sendo carne, estando entre nós. Porém, como encarar a figura de Jesus e todo o seu trajeto de vida? De que forma nós, podemos aprender com sua caminhada? François Mauriac nos propõe uma bela reflexão acerca da vida de Jesus. Não, este não é um livro para Cristãos, é um livro para qualquer pessoa que queira, de certa forma, compreender ou buscar entendimento da realidade e vida de Jesus, enquanto homem, afinal, ele é o filho do homem.

E se o amor for o motivo do ódio em todo o mundo? Não há como pensar nesta possibilidade, pelo menos para algumas pessoas esta hipótese é inacessível, mas não é. Jesus era amor, ele era uma figura complexa em meio ao mundo, ele era o amor personificado em meio ao pecado. O amor dividiu pessoas e as fez acreditar e desacreditar em seus preceitos. De que forma uma figura tão calma, e ao mesmo tempo tão autoritária era vista pela sociedade? Como Mauriac nos diz: “Eles achavam escandaloso que eles rasgassem os seres, os separassem um do outro, quebrassem as amarras do sangue e, finalmente, jurassem àqueles que o seguiram o ódio, a perseguição e o martírio.”. Ele veio para acender um fogo que deveria incendiar a terra e renová-la, mas apenas algumas almas começaram a ser ardentes. Duvidaram. Seus seguidores duvidaram, e se analisarmos as escrituras, poucos mantiveram-se fiéis, afinal, todos esperavam um sucesso passageiro, efêmero e pouco elucidativo para aqueles que o seguiam. Amar os seus inimigos e pregar o evangelho não poupou Jesus da perseguição. Manter-se santo, achegar-se aos pobres e oprimidos não o tirou da lista daqueles que o queriam morto, muito pelo o contrário, acendeu o ódio coletivo em uma classe de pessoas que antes o recebera com cantos de júbilo em Jerusalém, mas que agora, optam cegamente por chicoteá-lo com juras de blasfêmia. Então vem aquele questionamento que acende em nós a incerteza inerente à nossa fé: o que esperar destas pessoas que condenaram o mundo quando condenaram o amor? Seria necessário uma ação do Espírito de forma coletiva e efetiva em todos? Será que faria alguma diferença?.

A grande verdade é que a irritação de Jesus em certos momento, nunca voltou-se para o castigo, mas para a reparação, de forma que, todos possam compreender que o amor deve sobrepor a irritação, e que a calmaria e mansidão sempre vencem o julgo: Na verdade, quando ele está realmente irritado, e não retém imprecações ou maldições, ele sempre se dirige a grupos, castas, nunca a um homem em particular. Assim que ele se encontra diante de uma alma, mesmo de Judas, ele se desmascara, e é a face do amor que aparece. Ele odeia e amaldiçoa a riqueza; ele grita: “Ai dos ricos!” Ele fecha a porta para o céu. Mas ele só precisa dar uma olhada no jovem rico e já a ama.

A justiça do amor aparece para os fariseus e sábios de todas as idades como um ponto alto de injustiça. Será dado àquele que já recebeu, os obreiros da primeira hora não tocam mais do que os do passado, nem o filho mais velho mais do que o pródigo: o coração de Cristo tem razões que a nossa razão não conhece, e contra a qual nossa sabedoria está irritada. Seus pensamentos não são nossos pensamentos .

Alguém que foi seguido pelos doutores e poderosos de seu tempo. Alguém que atraía multidões, que era ouvido e difundido por todas as províncias, recusou-se a ser rei em um mundo onde tudo lhe foi ofertado, mas o seu coração não se vangloriou e nem caiu no orgulho ou na tentação de estar acima daqueles que o seguiam, muito pelo contrário, ele manteve-se na mesma posição que todos: servos. Ele veio para servir e para que todos tenham vida, e a tenham em abundância.

Esta narrativa elucidativa da vida de Jesus é um ensinamento além daquilo o que lemos nas linhas de suas palavras deixadas no antigo e no novo testamento. Mauriac, católico, escritor laureado nos propõe uma reflexão a estarrecedora acerca da vida de Jesus. Mais que uma obra, um ensinamento em prosa, uma narrativa que grita e que clama. Jesus foi, e ainda é – pelo para mim – a maior referência de amor, paciência, mansidão e perdão existente no universo. Livro indicado para leitores ávidos pelo conhecimento acerca da fé e vida de Jesus.

FRANÇOIS MAURIAC

Escritor  francês laureado com o prêmio Nobel de Literatura de 1952, em reconhecimento “à profunda impregnação espiritual e artística com que seus romances penetraram o drama da vida humana”. Educado em sua cidade natal, na escola “Des Marianistes” e no liceu Grand-Lebrun, de formação católica, Mauriac refletirá em sua obra a influência de Pascal e Francis Jammes, um conflito trágico entre o amor da religião e as tentações. Sobre ele disse Otto Maria Carpeaux: “Mauriac é um mestre: ninguém negará este título ao autor de numerosos romances tão fascinantes como Thérèse Desqueyroux e Le Noeud de Vipères, que desnudam com força incomparável as almas pecadoras (…) ele é assim “o maior representante do romance psicológico da tradição francesa”.

Iniciou sua carreira em 1909, com um livro de poemas (“Les Mains Jointes”). Publicou estudos biográficos e críticos, colaborou também em revistas e jornais franceses, tendo mantido por muitos anos seu “Bloc Notes”, coluna publicada inicialmente no jornal La Table ronde, depois no Le Figaro, e a partir de 1955 na revista L’Express. François Mauriac entrou para a Academia Francesa de Letras, em 1933, ocupando a cadeira 22.

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Blogueiro, escritor, poeta, professor, ensaísta, cinéfilo, viajante e filantropo. Estudante de Ciências Sociais em busca de uma compreensão mais assertiva do nosso local em sociedade.

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