Resenha: Azul Instantâneo, por Pedro Vale

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Foto: Vitor Lima / Post Literal / Divulgação

SINOPSE “Azul Instantâneo” é o primeiro livro de Pedro Vale. Com 38 anos de idade, há 15 que se mudou para a Madeira, mas sempre que possível regressa a Moreira de Cónegos, de onde é natural. Pedro Vale é professor do 1º ciclo, tendo frequentado recentemente o curso de Ciências da Cultura, na Universidade da Madeira. A leitura sempre esteve presente na sua vida, mas “a escrita surgiu de uma forma espontânea, através do “Facebook”. Era nesta rede social que Pedro Vale escrevia diretamente, sem passar para o papel, os textos que produzia. Então, entre março de 2016 e setembro deste ano, decidiu recolher tudo aquilo que escreveu e depois, em três meses, esteve “a trabalhá-los até dar origem ao livro”. O autor garante que “não há um fio condutor, não há um tema”, contudo, “há um sentimento, uma espécie de mensagem que é também preciso ler e reler algumas vezes para entrar no universo do livro”. “Acaba por ser um apelo às sensações das pessoas”. Segundo Pedro Vale, o livro “é também um bocadinho autobiográfico”.

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Foto: Vitor Lima / Post Literal / Divulgação

A cor azul significa tranquilidade, serenidade e harmonia, mas também está associada à frieza, monotonia e depressão. Simboliza a água, o céu e o infinito. Neste enredo poético, Pedro Vale nos apresenta a singularidade e a profundidade da vida refletida na cor azul, de forma instantânea. Todo este emaranhado de vida poética, constitui em sua totalidade, lembranças de manuscritos publicados pelo autor em sua página do Facebook entre março de 2016 e setembro de 2017, tendo sido reunidos, revisados e publicados posteriormente nesta obra tão profunda e intensa. 

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Foto: Vitor Lima / Post Literal / Divulgação

Diferente de outras publicações dentro do mesmo segmento literário, o autor não utilizou apenas uma frase como nota de abertura em seu enredo, ele foi além, e utilizou quatro. Dentre as quatro frases, a melhor de todas, talvez, seja o diálogo entre personagens de Matrix, Neo e Morpheus. Onde Neo questiona Morpheus “Por que meus olhos doem?”, então vem a resposta que nos coloca a pensar “você nunca os usou antes“. E como se não bastasse nos fazer pensar na realidade através deste diálogo, ele faz uma imposição da realidade através de uma citação bíblica, mais precisamente em Mateus 5:14: “E ao que quiser pleitear contigo e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e a quem te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. “ Numa frase encontramo-nos com a cegueira à qual nos acostumamos quando não utilizamos nossa visão, ou quando fingimos ou deixamos de querer enxergar a realidade tal como ela é, na frase seguinte, podemos encarar como uma visão abrangente da vida: Se quiserem reivindicar algo, tira tudo o que tu tens, e dê a ele, e se te obrigarem a caminhar uma milha, vá com ele duas. Esta visão torna-se a real, pura e verdadeira essência da compreensão da vida. 

A primeira parte desta obra abre com uma frase interessantíssima: Liberto a palavra e solto o pulso. Definitivamente, aqui, as palavras estão soltas. O autor alterna entre uma escrita fluída e livre de engasgos, para uma escrita intensa e repleta de metrificações únicas com o uso de um estilo pessoal misturado a uma série de estilos mesclados, onde o tópico faz-nos refém, nos retendo dentro de seu infinito particular: É preciso viver sem paixões. / Mergulhar no absoluto anonimato, / Permanecer morto ou vivo até ao fim. 

Há muito o que se falar acerca da escrita de Pedro do Vale, mas talvez, a mais intensa e presente seja  aquelas que se arraigam no sentimento de encontrar-se em meio à uma narrativa descritiva que leva-nos de uma cadeia de sentimentos à um misto de sentir-não sentir- desejar – não desejar. Não sei ao certo o que me impressiona mais nesta narrativa. Talvez seja a magnificência com a qual o autor conduz seus manuscritos e a sutileza com a qual lida com as perspectivas dentro de suas linhas. Talvez seja o infinito que se desenha com o folhear de cada página, já que as óticas que nos são apresentadas são múltiplas, fazendo-nos sentir tudo como se fosse a primeira vez. 

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Foto: Vitor Lima / Post Literal / Divulgação

Não, este livro não fala de amor – não somente dele -, mas fala-nos da essência da vida, dos momentos, do instante que vivemos debaixo do azul do céu, dos momentos que são, de fato, instantâneos abaixo da única coisa que nunca passa: o céu, o azul. Nós passamos, a vida passa, mas o céu permanece, as coisas permanecem, e cabe a nós desenhar um sentido, dar uma delineada, compreender os passos e permanecer-nos sempre ativos, inteiros e vivos em nosso propósito.

Talvez um dia recordes
num qualquer espelho torto
quão simples fora a tua salva
e te lembres daquela vez
em que ceáramos apenas meia
laranja e nada de pão naquela casa cega
com o telhado a verter lágrimas
de fel.

Como dito pelo próprio autor na página 19, a poesia vai pela rua. Ela desenha o cotidiano de uma forma poética, sofrida, única, mas repleta da verdade da essência daqueles que atrevessem-se a viver de forma única e apaixonada. Viver sem paixão, como dito anteriormente, é entender que tudo passa, e que a paixão anda de mãos dadas com o sofrimento, mas viver apaixonado pela vida é um frescor que nunca se perde. É uma essência que nunca nos deixa, é um calor que nunca deixa de aquecer, viver de forma apaixonada é compreender que tudo é instantâneo, até mesmo os momentos delineados pelo azul, pelo instante, pelo sentimento, por nós. Compreenda o quão passageiro as coisas são, e viva, viva intensamente e apaixonadamente os momentos que lhe forem entregues durante sua caminhada. Entenda, reflita, persista, caminhe e lute por tudo aquilo o que se acredita: Acorda e sente, / mesmo que à tangente, / O que é ser filha de Portugal. (p.25).

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Beber tanto azul
Até limpar a
Neurose. (p.28)

Uma escrita elaborada para gente corajosa. Um enredo poético repleto de vida – e da ausência dela. Indicado para qualquer entusiasta da vida, para qualquer pessoa que sonha e que vive de forma atrevidamente poética.

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Blogueiro, escritor, poeta, professor, ensaísta, cinéfilo, viajante e filantropo. Estudante de Ciências Sociais em busca de uma compreensão mais assertiva do nosso local em sociedade.

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