Resenha: Minha estampa é da cor do tempo, de Neurivan Sousa

SOUSA, Neurivan. Minha estampa é da cor do tempo. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2017. 97p

Minha estampa é da cor do tempo é um livro de poesias escrito pelo autor Neurivan Souza, publicado pela editora Penalux em 2017. O livro é uma narrativa temática dividida em cinco sessões/capítulos intituladas “estampas”, sendo: Estampas Azuis, Estampas Brancas, Estampas Amarelas, Estampas Vermelhas e estampas cinzas. A narrativa do autor perambula por meio de uma alusão ao aqui e o agora, todos, de certa forma, voltados para valoração da vida. A primeira estampa – azul -, é uma demonstração da clareza de visão do autor com relação ao tempo, vida, sentimentos e vivências. Já nas primeiras linhas poderemos notar sua notável inclinação para as tendências sensoriais – referente à sensação de vivência -, como em “rixa”, poema de abertura da primeira sessão do livro, ao ler: “[…]eu quero uma palavra nova intacta e físsil, para desfazer o mundo porque o ofício do poeta é rivalizar com Deus”, onde nota-se claramente o desejo do autor por novas experiências de vida, de sensações, de momento em numa rixa constante com Deus, já que não existem mais palavras que desfaçam o mundo, todas estão em uso, e para um poeta, o mundo se faz e refaz constantemente, então rivalizar com Deus é uma forma de impor desejos de mudanças, é um desejo internalizado de “eu preciso viver mais, muito mais além disto o que estou vivendo”, novamente, no poema “mea culpa”, lê-se: “Sinto-me um celeiro vazio depois de desperdiçar a colheita lá fora nos talos dos momentos”, se no poema de abertura o autor fala-nos de sua vontade de renovo, neste, o autor declara não ter vivido o melhor de seus momentos, de não ter aproveitado, e como o tempo não volta sentimo-nos como celeiros vazios, ao despertar a colheita (experiências, momentos, vivências) lá fora.

Nesta obra há um poema intitulado “À lá Manoel de Barros”, onde o autor expõe sua falta de tato com a realidade criada pelo homem e seu desejo pelo contato direto e cru com a natureza, com a criação, com a experimentação que as tecnologias não nos propiciam, uma insatisfação constante pelos sentimentos e momentos constantes e voláteis. Este poema é uma narrativa descritiva da capacidade prolífica de Manoel de Barros descrever os sentidos do universo e de suas performances em vida. Em seu poema “retrato do artista quando coisa”, Manoel Barros assemelha-se à Neurivan Souza, sobretudo, em sua constante ausência de vontade ou satisfação com o mundo limitado, ambos, poetas, querem mais, lê-se:

A maior riqueza do homem é sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou— eu não aceito.

Na segunda parte deste livro pode-se notar que o autor continua dando sequência à sua interminável admiração pela vida. Aqui, há uma nítida demonstração daquilo que move o poeta. Seus poemas “máscaras”, “pátio interior”, “satisfação” e “fluidez” falam das palavras – pronunciadas, ouvidas, excluídas, excedidas – como também fala da ausência destas palavras e de seu impacto.

VAZIO, se não fosse o eco da lágrima no papel em branco”.

Estampas amarelas, a terceira parte desta obra e sua narrativa acerca da existência daquilo o que se vale a pena lembrar. O amarelo é frequentemente utilizado como ferramenta de engajamento da criatividade, bem como impulsionador eficaz da felicidade. Aqui, o autor traz consigo relatos e retratos de momentos que marcam, que causam felicidade ou que despertam lembranças capazes de fazer-nos feliz. Como uma nova vida descrito em “Ben”: “(…)meu filho Léo na incubadora, anjo sem asa deitado em lã, ouvindo a vida dizer vem!.

Ah, e como seria “adormecer e descobrir que o céu se moveu para debaixo dos pés (p.50)”.

A quarta parte desta obra intitulada “estampas vermelhas”, é uma sátira – assim o encarei. O vermelho que é a cor universal da representação do amor, aqui, é utilizado para simbolizar o quão passageiro a vida, os momentos e os sentimentos são. Notas que falam de uma voz silenciada, de um sonho interrompido, de um medo não curado e das diversas formas que o homem encontra para interromper sua própria felicidade. Não podendo citar apenas uma parte deste capítulo, fiquemos com várias, sendo:

A bala perdida
A bala perdida
Abala esquinas
Abala os becos
Abafa os gritos
Dos que grifam
O próprio medo
Aciona sirenes
UTI’S e funerárias (p.66)

A suprema corte?
Jura prudência
Condena o povo
E solta Barrabás (p.68)

Os muros mudos
Deste mundo sórdido
Crescem como relva
E silenciam as vozes
Dos que não têm asas (p.70)

O livro finaliza-se graciosamente em “estampas cinzas”, que é quando o mundo mostra-se sem cor, sem forma, sem sentido, sem grau, sem retorno e sem sentido.

Jogo o balde
No poço das memórias
A água vem de lá

São lágrimas
Não serve para matar
A minha sede (p.85)

A poesia de Neurivan é um chamado ao despertar para vida, para os momentos, para os sentidos, para os desejos e para os sonhos. Cada capítulo descreve com singularidade e com uma sutileza sem precedentes os momentos que marcam a vida de um indivíduo: a vida que passa, o arrependimento do não aproveitamento, os desejos, as vontades e os sonhos que ficaram, restaram ou que se projetaram ao longo da caminhada. Honestamente, este livro me lembrou bastante “canção de exílio”, de Gonçalves Dias. Tanto Dias, quanto Sousa possuem uma nítida paixão pela vida, pela terra, pela existência daquilo o que deve ser vivido e preservado. Ambos possuem em si o poder de escrever e descrever sentimentos, desejos e vida em linhas. Uma poética louvável.

O AUTOR

NEURIVAN SOUSA é maranhense, natural de Magalhães de Almeida (1974), mas radicado em Santa Rita/MA desde 1998. Poeta e professor da rede pública, é membro fundador da Associação Maranhense de Escritores Independentes — AMEI, e Membro correspondente da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e artes — AICLA.

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Blogueiro, escritor, poeta, professor, ensaísta, cinéfilo, viajante e filantropo. Estudante de Ciências Sociais em busca de uma compreensão mais assertiva do nosso local em sociedade.

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