[RESENHA #357] A sociabilidade do homem simples, de José de Souza Martins

[…] é nos limites, nos extremos da
realidade social, que a indagação do cientista se torna fecunda. A explicação
sociológica é incompleta e pobre se não passa pela mediação do insignificante.
O relevante está no ínfimo, na vida cotidiana fragmentária e aparentemente sem
sentido. Este livro, escrito por um dos mais importantes sociólogos brasileiros
contemporâneos, trata da vida social, do imaginário e da visão de mundo do
homem simples e cotidiano.
A
sociabilidade do homem simples é um livro de não-ficção escrito pelo professor
e sociólogo José de Souza Martins, publicado pela editora contexto no ano de
2008. Nesta obra, o autor de “Uma sociologia da vida cotidiana” e “a política
do Brasil”, se desdobrará acerca dos aspectos sociais que formam o cotidiano do
homem simples, para tal, o autor delineará através das teorias de Henri
Lefebvre, ao qual, assegura que o processo de produção social contemporânea
dá-se por intermédio das composições temporais encontradas no “desencontro”, a
teoria social constituinte do homem simples contemporâneo e sua relação com a
história. Este ritmo de desencontro acende um modo bastante subjuntivo da
modernidade particular nas chamadas regiões periféricas. É dentro desta ótica
que o professor José Martins constrói sua teoria social do homem simples dentro
da realidade contemporânea através de uma série de entrevistas e ensaios que
tratam de forma clara e objetiva a relação do homem com a história.  
Há algo
de muito interessante neste livro, e eu não falo de sua escrita ou temática,
falo de sua força e capacidade de nos fazer enxergar as relações sociais em
suas diversas óticas de forma mais transparente, nos fornecendo um aparato
histórico, filosófico e sociológico que nos ajuda a regressar ao passado para
uma compreensão mais assertiva acerca das intempéries da desigualdade do
desenvolvimento histórico capitalista e social. A sociabilidade do homem
simples possui uma força magnética reflexiva, onde o autor nos convida à um
possível reencontro do homem com o homem, em outras palavras, uma proposta de
reflexão acerca da singularidade brasileira no mapa sociológico dentro do
contexto histórico reflexivo. A relação que se estabelece dentro de seus
ensaios e entrevistas dentro da temática do social volta-se para uma proposta
metodológica clara acerca das condições construídas em seu enredo de
elaborações interligadas de questão sobre questão. O homem simples, a história
e a construção social são o “triângulo ápice” deste estudo, ao qual, claro, o
autor nos convida a compreender, refletir, estudar e progredir em suas análises
de uma terra latino-americana. A realidade latino americana é temporal, breve,
passageira, pois esta é constituída de uma série de ritmos que emitem sua
especificidade social, para tal análise, faz-se necessário uma compreensão de
primeiro mundo acerca do que se vem a ser
modernidade
. De acordo com o autor, modernidade vem a ser “[…] realidade social e cultural produzida
pela consciência da transitoriedade do novo e do atual
” (MARTINS, 2008,
p.19), em outras palavras, podemos definir a modernidade como o confronto do
atual com o atemporal, ou melhor ainda, a travessia lenta entre o passado e o
presente.  Partindo deste ponto,
analisa-se a modernidade brasileira no encontro popular atual, contemporâneo
com seus resquícios históricos.
Este
livro é magnífico, não há palavras para descrevê-lo em sua totalidade. A
pesquisa elaborada pelo professor José de Souza Martins, permite-nos buscar
nossas próprias questões através de todo um aparato sociológico social e
estrutural estabelecido em suas linhas. Esta análise social acerca do homem contemporâneo
brasileiro, latino, em relação à história é um dos trabalhos mais proeminentes
que já li dentro deste segmento. O autor traz à baila uma série de questões
históricas que transitam entre os núcleos periféricos brasileiros e as diversas
indagações que possuímos acerca da desigualdade capitalista e social através da
figura do homem “simples”, que para todos os efeitos, é maioria absoluta.
Livro
indicado para todo leitor e estudante da área de sociologia, história e
filosofia. Também é indicado para leitores interessados em compreender um pouco
mais acerca da desigualdade social contemporânea através das análises
(ensaios/entrevistas) propostas pelo professor e autor.
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O AUTOR
José de Souza Martins é um dos mais importantes
cientistas sociais do Brasil. Professor titular aposentado de Sociologia e
professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), foi eleito fellow de Trinity Hall e
professor da cátedra Simón Bolívar da Universidade de Cambridge (1993-1994). É
mestre, doutor e livre-docente em Sociologia pela USP. Foi professor visitante
na Universidade da Flórida (1983) e na Universidade de Lisboa (2000). Foi
membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas
Contemporâneas de Escravidão (Genebra, 1996-2007). Professor Honoris Causa da
Universidade Federal de Viçosa, doutor Honoris Causa da Universidade Federal da
Paraíba e doutor Honoris Causa da Universidade Municipal de São Caetano do Sul.
Autor de diversos livros de destaque, ganhou o prêmio Jabuti de Ciências
Humanas em 1993 – com a obra Subúrbio –, em 1994 – com A chegada do estranho –
e em 2009 – com A aparição do demônio na fábrica. Recebeu o prêmio Érico
Vannucci Mendes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq), em 1993, pelo conjunto de sua obra, e o prêmio Florestan
Fernandes da Sociedade Brasileira de Sociologia, em 2007. Pela Contexto,
publicou os livros A sociabilidade do homem simples, Sociologia da fotografia e
da imagem, Fronteira, O cativeiro da terra, A política do Brasil lúmpen e
místico, A Sociologia como aventura, Uma Sociologia da vida cotidiana,
Linchamentos, Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder e coautor do livro O
Brasil no Contexto 1987-2017. 

Blogueiro, escritor, poeta, professor, ensaísta, cinéfilo, viajante e filantropo. Estudante de Ciências Sociais em busca de uma compreensão mais assertiva do nosso local em sociedade.

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