[RESENHA #356] O Segundo sexo, de Simone de Beauvoir

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Edição comemorativa de “O segundo sexo”, Nova Fronteira

2019 é o ano de celebração de 70 anos da publicação de um dos livros mais emblemáticos da centralidade feminina: “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir. Publicado em 1949, o livro trouxe consigo pautas extremamente fortes que abriram debates, polêmicas e resistência por parte da polaridade política esquerda e direita. E é por este motivo que a Nova Fronteira lançou uma edição comemorativa da obra de Beauvoir, para nos lembrar das intermináveis indagações propostas pela autora.

Para se compreender a totalidade dos pensamentos de Beauvoir faz-se necessário a compreensão do movimento ao qual constituem os pensamentos da autora, o existencialismo. No existencialismo, a existência tem prioridade sobre a essência humana, portanto o homem existe independente de qualquer definição pré-estabelecida sobre seu ser. No existencialismo há a pressuposição de que a vida seja uma jornada de aquisição gradual de conhecimento e essência do ser, por esta razão ela seria mais importante que a substância humana. Nesta corrente filosófica, não crê-se assim que, o homem tenha um propósito pré-determinado como definido pela religião, mas que seu propósito se construa na caminhada de vida. O ideal de essência torna-se cada vez mais complicado de se ser alcançado, afinal, já não existe mais a ideia advinda do cristianismo de que toda essência criada pelo criador é imutável, afina, segundo Darwin, não existe uma essência para nada, pois todas as coisas estão em um constante devir (transformação). É a partir deste ponto que poderemos compreender o pensamento de Jean Paul Sartre: A existência precede a essência. Ou seja, segundo Sartre, as coisas estão, elas não são. Tudo o que há agora passa por uma transformação contínua e sua essência é passageira, cabendo a nós dar sentido a ela.

Beauvoir dialoga entre dois movimentos característicos da época: sufrágio e operário. Se analisarmos através desta ótica, notaremos que, a autora adotou uma “abordagem de época”, para reforçar seus pressupostos acerca da subalternidade da figura feminina. É dentro deste exercício de reflexão que Beauvoir trabalha suas ideias acerca da opressão sofrida pela figura da mulher.

Por que repensar a obra por está ótica é tão importante? Simplesmente pelo fato de podermos enxergar com clareza que Beauvoir não se desprende da realidade, mas pelo contrário, é completamente a frente de seu tempo, principalmente nos aspectos históricos.

Esta edição comemorativa separa os dois eixos centrais da narrativa em livros distintos, sendo: Fatos e Mitos; Experiência vivida, e um pequeno livro intitulado “70 anos depois”.

FATOS E MITOS

“Reconhecer um ser humano na mulher não é empobrecer a experiência do homem: esta nada perderia de sua diversidade, de sua riqueza, de sua intensidade, se se assumisse em sua intersubjetividade; recusar os mitos não é destruir toda relação dramática entre os sexos, não é negar as significações que se revelam autenticamente ao homem através da realidade feminina; não é suprimir a poesia, o amor, a aventura, a felicidade, o sonho: é somente pedir que as condutas, os sentimentos, as paixões assentem na verdade”

Fatos e mitos é a primeira parte do manuscrito de Simone de Beauvoir. Aqui, a autora trabalhará arduamente em cima da desmistificação dos pressupostos que dizem respeito a vivência da mulher.  Aqui, Beauvoir trabalhará na explicação do porquê as “essências existentes” da mulher na sociedade não explicam como se dá a subordinação da mulher em relação aos homens.

A EXPERIÊNCIA VIVIDA

“Uma ética verdadeiramente socialista, ou seja, buscar a justiça sem suprimir a liberdade, que impõe ônus aos indivíduos, mas sem abolir a individualidade, ficará muito embaraçada com os problemas impostos pela condição das mulheres.”

Segunda parte do segundo sexo. Se na primeira parte, Beauvoir busca desmistificar a vivência da mulher no social, na segunda parte, ela coloca em prática como realmente essa existência e essência funcionam. Como que a mulher constrói a sua existência? Citando diversos exemplos de outras mulheres e suas construções e caracterizações, Beuvoir compreende de forma abrangente a real explicação do por que estas mulheres foram se construindo da forma como se construíram e não de outra forma.

“Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e há um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher.” (Aristóteles)

“Tudo o que os homens escreveram até hoje sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles sao, a um só tempo, juiz e parte.” (Fançois Poullain de La Barre)

A partir dos pensamentos acima, a autor inicia uma investigação através de uma série de outros pensamentos, buscando a compreensão por meio de questões. Aqui, Beuvoir critica a Biologia, o ponto de vista psicanalítico e o ponto de vista materialista. Ao questionar a biologia, a autora não nega que exista uma natureza feminina que se difere da natureza masculina, porém, ela também não acredita que essa diferença seja o suficiente para explicar os motivos pelos quais a mulher é sempre colocada em ponto de subordinação com relação ao homem.  Já o ponto de vista psicanalítico de Freud e Adler é confrontado, afinal, são pensamentos masculinos acerca da essência da mulher que dependeram de um contexto histórico para se solidificarem. Em outras palavras, se existe, de fato, um complexo de inferioridade feminino em relação aos homens, é porque a mulher está inserida dentro de um contexto social que valoriza muito mais a virilidade masculina, do que a virilidade feminina. Nesta parte, a autora também busca compreender o que dá à mulher o status de feminina levantando diversas questões. Afinal, o que dá a uma mulher o status de mulher? Seriam suas vestes, unhas pintadas ou uma essência pré-existente platônica da essência feminina? Ou esta essência estaria presa à um conceito biológico de que a feminilidade está ligada diretamente as questões biológicas? Será que basta pintar o cabelo, unhas e usar saia para ser mulher? E partindo de questões como estas que Beauvoir sintetiza toda a sua ideia em uma única frase, sendo ela: Não se nasce mulher, torna-se.

Enfim, o livro é incrivelmente rico e merece ser lido, estudado e folheado dezenas de vezes, até que suas palavras tornem-se efetivas em nosso eu. Como estudante de Ciências Sociais, é interessante ler Beauvoir. A teoria da autora acerca da formação da figura feminina no campo social, a construção da identidade feminina, o lugar da mulher na sociedade segunda a concepção e visão histórica, a mulher como objeto e não somo sujeito, dentre outros diversos temas abordados pela autora, tornam a experiência de leitura extremamente densa e rica. É necessário uma capacidade intelectual que exceda as linhas desta obra. Em outras palavras, para que se compreenda de fato as ideias de Beauvoir, faz-se necessário ler as diversas contribuições citadas pela autora ao longo de sua narrativa. A compreensão das correntes filosóficas e das inúmeras contribuições de outras correntes para a compreensão da teoria e formação da mulher como ser no campo social é indispensável. Este é um livro que merece destaque na prateleira, não por ser um livro que estuda àquilo o que buscamos compreender, mas por ser um livro que excede as expectativas do leitor com relação as teorias estudadas e apontadas por Simone de Beauvoir. Uma leitura realmente intrigante.

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Foto: Acervo Pessoal | Nova Fronteira

SETENTA ANOS DEPOIS…

Há um notável afastamento (em partes) de “o segundo sexo” com a realidade contemporânea. Afastamentos teóricos enfraquecidas pelas contribuições marxista, e claro, do movimento feminista, o que claro, constituí parte da celebração desta obra — a conquista do empoderamento social, político, pessoal e partidário das mulheres.  Porém, ainda assim, “o segundo sexo”, segue incomodando muita gente, não somente por seus pressupostos inquietantes, como também por sua capacidade descritiva da realidade feminina, que por um lado, permanece a mesma. A maior conquista deste livro, talvez,  tenha sido o impacto que a escrita de Beauvoir causou durante os anos que se sucederam nestes setenta anos, podemos dizer que sua missão foi cumprida: a sociedade, de certa forma, leu, analisou, debateu e discutiu o espaço da mulher em sociedade. Sigamos em frente rumo a luta, pois as conquistas não podem parar.

ALGUMAS CITAÇÕES PRESENTES NESTA OBRA:

“Mas, de qualquer maneira, criar, cuidar não são atividades, são funções naturais; nenhum projeto está envolvido; é por isso que a mulher não encontra aí a razão de uma afirmação arrogante de sua existência; ela passa seu destino biológico passivamente.”

“A ideologia cristã não contribuiu muito para a opressão das mulheres.”

“A razão subjacente às mulheres história dedicada em trabalho doméstico e proibidos de tomar parte na construção do mundo é a sua subserviência à função geradora.”

“Mas, na verdade, as vozes femininas silenciam onde a ação concreta começa; eles foram capazes de provocar guerras, não sugerir as táticas de uma batalha; eles têm orientado a política apenas na medida em que a política é reduzida à intriga: os comandos reais do mundo nunca estiveram nas mãos das mulheres; eles não agiram nas técnicas ou na economia, não fizeram ou derrotaram estados, não descobriram mundos. É através deles que certos eventos foram desencadeados: mas eram pretextos muito mais que agentes.”

“O privilégio econômico mantido pelos homens, seu valor social, o prestígio do casamento, a utilidade do apoio masculino, todos comprometem as mulheres a desejarem agradar aos homens. Eles ainda estão em uma situação geral de vassalagem. Segue-se que a mulher conhece e escolhe a si mesma não como ela existe para si mesma, mas como o homem a define.”

“O homem conseguiu escravizar a mulher: mas a esse ponto ele a despojou do que a tornava desejável.”

“Ninguém é mais arrogante em relação às mulheres, agressivo ou desdenhoso, do que um homem preocupado com sua virilidade.”

 
A AUTORA
 
Simone de Beauvoir foi uma autora e filósofa francesa. Ela escreveu romances, monografias sobre filosofia, questões políticas e sociais, ensaios, biografias e uma autobiografia. Ela é agora mais conhecida por seus romances metafísicos, incluindo Ela veio a ficar e os mandarins, e por seu tratado de 1949 sobre o segundo sexo , uma análise detalhada da opressão das mulheres e um trato fundamental do feminismo contemporâneo.
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Blogueiro, escritor, poeta, professor, ensaísta, cinéfilo, viajante e filantropo. Estudante de Ciências Sociais em busca de uma compreensão mais assertiva do nosso local em sociedade.

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