[RESENHA #355] O Príncipe, de Nicolau Maquiavel

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O príncipe, Nicolau Maquiavel // Nova Fronteira

O Príncipe é um livro escrito pelo autor, historiador, filosofo e diplomata Nicolau Maquiavel em 1513, cuja primeira edição foi publicada postumamente, em 1532. O livro é considerado hoje um dos pilares fundacionais da ciência política moderna, pelo fato de descrever o Estado e o Governo como eles de fato são e não como deveriam ser, em outras palavras, o enredo descrito por Maquiavel descreve as práticas, não as teorias relacionadas ao governo, poder e hierarquia. Para que se torne efetiva a compreensão do livro, o príncipe, faz-se necessário compreender antes de mais nada o conceito de virtude, política, sociedade e as relações do autor com este meio. Maquiavel viveu durante o período da República Florentina durante o governo de Lourenço de Médici, o que o fez entrar para a política aos vinte e nove anos de idade no cargo de secretário. Neste cargo, Maquiavel teve contato com grandes nomes, ao qual, observou seus comportamentos e inseriu em sua obra.

O Príncipe é uma obra inspirada no estilo de governo de César Bórgia, um ambicioso comandante político conhecido por sua tomada de decisões consideradas “impiedosas”. Bórgia desde então, tornou-se modelo para os demais governantes da época. A obra é o retrato da preocupação de Maquiavel com o momento histórico ao qual a Itália estava passando, fragilizada pela ausência de unidade nacional, sendo alvo de invasões e problemas diplomáticos, incluindo a decadência moral no meio político fez com que Maquiavel dirigisse conselhos a um príncipe imaginário, com o objetivo de tonar a Itália forte novamente e na esperança de unifica-la novamente como uma potência moderna e poderosa.

Para Maquiavel, um governante deveria fazer absolutamente tudo o que estivesse ao seu alcance para realizar o que se desejava, independente da forma de governo, monarquia ou república, não importa, tudo torna-se justificável, até mesmo a violência. Os fatores religiosos, morais e econômicos que regem a sociedade podem e devem ser utilizados por seu governante como um “escape” para tornar o estado mais forte através de suas decisões.

Em suas anotações, Maquiavel pontua que para uma boa administração, o soberano deve possuir boa fluência articulatória ligada a características pessoais, como ousadia, sagacidade, perspicácia e carisma. “O príncipe”, pode – e deve – ser considerado como um manual de ação política governamentista para efetivação e concretização de um poder absoluto e inabalável. Na obra, Maquiavel expõe fórmulas de convivência entre o príncipe e o povo, o clero, a nobreza e seus ministérios.

A partir deste ponto, poderemos analisar as divisões existentes na obra. O livro é dividido em vinte capítulos, cada qual com sua particularidade complementar do capítulo anterior. Poderemos notar já no primeiro capítulo os resquícios dos tempos em que Maquiavel atuou na política, sendo “de quantas espécies são os principados e como são adquiridos”, seguidos por: Os principados hereditários, os principados mistos, a razão pela qual o reino de Dario III, ocupado por Alexandre, não se rebelou contra seus sucessores após a morte deste, de que modo devem-se governar as cidades ou os principados que, antes da conquista, possuíam leis próprias, dentre outros diversos assuntos aos quais a obra se propõe a desbravar.

A autonomia política descrita por Maquiavel é a dissociação dicotômica da virtude política em relação a virtude moral. Se na visão tradicional faz-se necessário a virtude para o exercício da arte de governar, para Maquiavel, tudo isso é diluído. Isso ocorre por que o homem está inserido em um meio onde ele está suscetível à erros e fracassos, onde tudo pode escapar de seu controle, porém, ainda que não possa controlar todas as situações, pode-se moldá-las.

“Há, porém, uma tão grande distância entre o modo como se vive e o modo como se deveria viver, que aquele que em detrimento do que se faz privilegia o que se deveria fazer mais aprende a cair em desgraça que a preservar a sua própria pessoa. Ora, um homem que de profissão queira fazer-se permanentemente bom não poderá evitar a sua ruína, cercado de tantos que bons não são. Assim, é necessário a um príncipe que deseja manter-se príncipe aprender a não usar a bondade, praticando-a ou não de acordo com as injunções.”

Há aqui uma nova definição de virtude. Agora virtude não está mais relacionada a arte de agir segundo os paradigmas da moral. Maquiavel se distancia drasticamente da tradição moralista, mas mantem-se próximo ao ideal de que torna-se necessário agir tendo em vista um bem.

“César Bórgia foi reputado cruel; entretanto a sua dita crueldade reconciliou internamente a Romanha, fê-la coesa, reconduzindo-a a um estado de paz e de fidelidade. Considerando tudo atentamente, veremos que ele foi muito mais piedoso que o povo florentino, o qual, para evitar a fama que advém da crueldade, permitiu a destruição de Pistoia. Um príncipe, portanto, para poder manter os seus súditos unidos e imbuídos de lealdade, não deve preocupar-se com esta infâmia, já que com algumas poucas ações exemplares, ele mostrar-se-á mais piedoso que aqueles que, por uma excessiva comiseração acabam deixando medrar a desordem da qual derivam as mores e os latrocínios.”

 

Agora a virtude do homem habita na capacidade que ele possui em transitar entre o homem, a moral e o animal. Em outras palavras, saber o momento correto entre reconhecer-se como governante [homem], tomada de decisões baseadas em seus conceitos preestabelecidos [moral], e momento certo de usar de sua força, astúcia e poder para agir [animal]. Para Maquiavel, há apenas dois modelos de governos, sendo a república, e o principado. Claro, que como denunciado anteriormente, o autor irá ater-se apenas à segunda alternativa. A ciência política promovida pelo autor consiste na separação de política e moral, esta ideia fica cada vez mais evidente, visto que os pressupostos de Maquiavel são todos voltados para a manutenção do Estado.

O príncipe foi moldado num período onde a Itália encontrava-se decadente, onde o país corria sérios riscos de perder a independência nacional em virtude das diversas invasões da Espanha e França. É neste cenário que Maquiavel constrói os pensamentos de unificação de poder e fortalecimento da Itália.

 

Algumas citações desta obra:

“Todo mundo vê o que você parece ser, poucos experimentam o que você realmente é.”

“Se um ferimento tiver que ser feito a um homem, deve ser tão severo que sua vingança não precise ser temida.”

“O leão não pode se proteger das armadilhas e a raposa não pode se defender dos lobos. É preciso, portanto, ser uma raposa para reconhecer armadilhas e um leão para assustar os lobos.”

“Não há outra maneira de se proteger contra a lisonja do que fazer os homens entenderem que dizer a verdade não vai ofendê-lo.”

“O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que ele tem ao seu redor.”

“Nunca tente ganhar pela força o que pode ser ganho por engano.”.

“É muito mais seguro ser temido do que amado porquê … o amor é preservado pelo vínculo de obrigação que, devido à baixeza dos homens, é quebrado em todas as oportunidades para sua vantagem; mas o medo te preserva com um pavor de castigo que nunca falha.”.

“Porque existem três classes de intelectos: uma que compreende por si só; outro que aprecia o que os outros compreendem; e um terceiro que não compreende por si nem pela exibição de outros; o primeiro é o mais excelente, o segundo é bom, o terceiro é inútil. ”.

“Os homens em geral julgam mais pelo sentido da visão do que pelo sentido do tato, porque todos podem ver, mas poucos podem testar pelo sentimento. Todo mundo vê o que você parece ser, poucos sabem o que você realmente é; e esses poucos não ousam tomar uma posição contra a opinião geral.”.

“Como vivemos é tão diferente de como devemos viver, que aquele que estuda o que deve ser feito, e não o que é feito, aprenderá o caminho para sua queda, em vez de sua preservação.”

O AUTOR

Nicolau Maquiavel foi um filósofo, músico, poeta e dramaturgo político italiano. Ele é uma figura do Renascimento italiano e uma figura central de seu componente político, mais conhecido por seus tratados sobre teoria política realista (O Príncipe), por um lado, e republicanismo (Discursos sobre Lívio), por outro.

 

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O AUTOR


Nicolau Maquiavel foi um filósofo, músico, poeta e dramaturgo político italiano. Ele é uma figura do Renascimento italiano e uma figura central de seu componente político, mais conhecido por seus tratados sobre teoria política realista (O Príncipe), por um lado, e republicanismo (Discursos sobre Lívio), por outro.

Blogueiro, escritor, poeta, professor, ensaísta, cinéfilo, viajante e filantropo. Estudante de Ciências Sociais em busca de uma compreensão mais assertiva do nosso local em sociedade.

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