[RESENHA #345] Persuasão, de Jane Austen

Oito anos antes, Anne Elliot,  uma jovem de 19 anos carinhosa, atenciosa e com um grande coração, aceita a proposta de casamento de um jovem oficial da marinha Frederick Wentworth. Ele é inteligente, ambicioso e transpira auto-confiança, mas pobre e sem qualquer ligações familiares importantes que o recomendem. A família de Anne não ficam satisfeitos com a sua opção, argumentam que Frederick não está à altura de um Elliot de Kellynch Hall, o estatuto da família. Até a sua amiga mais velha e mentora, Lady Russell, que tenta substituir a falecida mãe de Anne, tenta persuadi-la a romper o noivado.

É em Persuasão, o último romance acabado de Jane Austen, que encontramos a sua heroína mais notável – Anne Elliot. Sobre ela escreveu um dia a autora: Ela é quase demasiado boa para mim. No entanto, naquela que é a sua obra mais amadurecida, que descreve uma órbita de afastamento nítida em relação ao tom predominantemente satírico dos seus anteriores romances, Austen trata o carácter e os afectos da protagonista de uma forma que, sem perder a ironia de vista, é muito mais terna, e anuncia já uma percepção mais aberta e dinâmica da personalidade e comportamentos humanos. Uma história de amor desenvolvida com profundidade e subtileza.

É possível mudar, e ainda assim, permanecer o mesmo? Em sua notável fase madura, Austen explora as possibilidades que o tempo nos oferece para nos tornarmos pessoas melhores. Persuasão é o retrato puro e objetivo de como fluíam as relações afetivas dentro de um sistema completamente voltado para valoração do capital do cônjuge. Anne Elliot, filha de Walter Elliot, apaixona-se por Frederick Wentworth, um rapaz ambicioso, sonhador, inteligente, perspicaz, porém, pobre. Tendo em vista de que esta união não seria vantajosa nem para família Elliot, nem para Anne, que ficaria jogada à um futuro incerto devido a renda do pretendente e sua completa ausência de referências significativas no meio social, a família decide intervir na relação encontrando formas de impedir o enlace matrimonial.

Anne possui duas irmãs, Elizabeth e Mary. Mary é casada, já Elizabeth sonha em se casar, inicialmente, com alguém com quem não consegue, afinal, vem à tona que seus planos seriam um fracasso completo. A partir deste ponto, a narrativa irá percorrer todos os anos de distanciamento entre Anne e seu pretendente, agora, um oficial da Marinha, porém, completamente apaixonado por Louisa Musgrove, vizinha de Anne. Anne é persuadida pelo tempo, ela encontra-se desolada e sem rumo, todos estes anos distantes de Wentworth não mudaram uma vírgula daquilo o que sentira, porém, existe o impedimento de Louisa, que afinal, é sua cunhada, afinal, é irmã de Charles, que é casado com sua irmã mais nova. Após esta percepção de sentimento, Anne começa a buscar métodos de compreensão daquilo o que sentira, bem como também, meios de evoluir a partir deste sentimento e da impossibilidade de o tê-lo, mesmo após tantos anos. Este é um romance sobre evolução sentimental, possibilidades, desejos e muito, muito amadurecimento.

Não há o que se falar sobre esta obra, ela fala por si só. Mas acredito que como toda boa literatura, esta, por sua vez, mereça algumas notas. Primeiramente, devemos trazer a tona a forma com a qual Austen conduziu sua narrativa. Aqui, neste romance, nota-se uma mudança genuína de escrita. Aqui, a protagonista não é tão ousada e emponderada como notamos em “orgulho e preconceito”, na figura de Elizabeth Bennet, mas ela possui sentimentos genuínos, e como toda mulher madura, busca-o compreendê-los e entende-los em sua totalidade. Este amadurecimento descrito com tamanha delicadeza, revela-nos que o amanhã é incerto, mas que as possibilidades sempre estarão abertas. É claro que a configuração do casamento manteve-se, afinal, é de conhecimento de todos que durante o século XVIII e metade do século XIX, as mulheres casavam-se apenas para manter o nome da família, ou seja, o matrimonio não era algo romântico como se é nos dias de hoje, os critérios para a escolha do marido estavam sempre sob vigília constante dos pais, e claro, o poder de todo bem material era sempre passada de pai para filho, o que deixava as mulheres de fora da aquisição de qualquer bem ou imóvel, tornando o casamento mais um contrato, do que uma troca de afetos,  Austen sempre me surpreendeu, desde o primeiro momento, pude notar o quanto sua escrita se delineava conforme o roteiro que ela se propunha escrever. Persuasão não é um roteiro de clichê de como as coisas funcionam, jamais foi, esta obra é apenas o retrato daquilo o que podemos ver, notar, sentir nas relações atuais: tudo tem seu momento, e as vezes, o momento de algo acontecer em sua vida ainda não chegou, e quando você menos esperar, será necessário estar pronto, esta história nos ensina a nunca desistir de persistir, Anne se fez, refez e se reconstruiu milhares de vezes, até tornar-se completamente capaz de conviver com o homem que amava, mesmo sem poder toca-lo ou possuir tamanha reciprocidade.

Leia este livro de coração aberto, de peito cheio e de expectativas de que o melhor nem sempre é aquilo o que queremos, e que ser maduro, talvez seja aceitar as imposições feitas pelo tempo, ao qual, claro, nós não podemos controlar.

Diferente de tudo o que já li, porém, fantasticamente surpreendente além daquilo o que consegui imaginar.

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SOBRE A AUTORA

Jane Austen (1775-1817) foi uma escritora inglesa, considerada uma das maiores romancistas da literatura inglesas do século XIX, autora de clássicos como “Orgulho e Preconceito” e “Razão e Sensibilidade”. Jane Austen (1775-1817) nasceu em Steventon, Hampshire, na zona rural da Inglaterra, no dia 16 de dezembro de 1775. Filha de George Austen, um reverendo anglicano, e de Cassandra Austen era a segunda menina entre sete irmãos, Cresceu em meio a um pequeno grupo social formado por uma classe abastada e religiosa. Com oito anos de idade, foi mandada para um colégio interno em companhia de sua irmã Cassandra, que se tornou sua melhor amiga por toda a vida. Ainda na adolescência, já mostrava seu talento para as letras. A biblioteca da família era seu lugar preferido quando regressava do colégio interno. Com 17 anos escreveu sua primeira obra “Lady Susan”, uma novela onde expõe as relações pessoais dos que viviam naquele tempo. Em 1797, Jane Austen já havia escrito mais dois romances, “Razão e Sensibilidade” e “Orgulho e Preconceito”. Os textos foram oferecidos por seu pai a um editor, mas foram rejeitados. Em 1801 a família mudou-se para Bath ponto de encontro da aristocracia britânica. Em 1805, após a morte do pai, Jane, sua irmã e sua mãe se mudaram para a vila inglesa de Chawton, onde um de seus irmãos lhes cedeu uma propriedade. Suas obras anteriormente recusadas pela editora, só foram publicadas em 1811 e 1813 respectivamente, sob o pseudônimo de “Uma Senhora”. Posteriormente, as obras se transformaram em clássicos da literatura inglesa.

Blogueiro, escritor, poeta, professor, ensaísta, cinéfilo, viajante e filantropo. Estudante de Ciências Sociais em busca de uma compreensão mais assertiva do nosso local em sociedade.

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