[RESENHA #344] A Abadia de Northanger, de Jane Austen

A Abadia de Northanger é considerado um dos trabalhos mais ligeiros e divertidos de Jane Austen. De fato, para além dos ambientes aristocráticos da fina-flor inglesa do século XVIII, encontramos aqui uma certa dose de ironia, sátira e até comentário literário bem-humorado. Catherine Morland é porventura a mais estúpida das heroínas de Austen.

A própria insistência no termo “heroína” ao longo da obra e a constatação recorrente do quão pouco este epíteto se adequa à personagem central fazem parte da carga irónica da história. E se Catherine é ingénua para lá do que seria aceitável, e o seu amado Henry a personificação de todas as virtudes masculinas mais do que seria saudável, a perfídia dos maus da fita – amigos falsos, interesseiros e fúteis – não lhes fica atrás no exagero.

Tudo isto seria deveras irritante não fora o tom divertido com que Austen assume ao longo das duas partes que constituem este livro o quão inverosímeis são as suas personagens Acrescente-se a paródia do romance gótico e do exagero em que induz as suas leitoras, e uma crítica inteligente aos críticos que acusam o romance de ser fútil e “coisa de mulheres”, e temos uma interessante historieta de amor, escrita com bastante graça e capaz de ultrapassar a moralidade caduca que nos habituámos a esperar da pena de Jane Austen.

Há algo de muito fascinante nesta escrita. Jane Austen é conhecida por dois motivos básicos. O primeiro, e talvez o mais marcante, é o fato de Austen ser contra padrões estabelecidos por um patriarcado. Em suas narrativas podemos observar que suas personagens estão sempre inseridas em um cenário opressor e inibidor de sua liberdade de ação, expressão e pensamento. Mas, calma lá, Austen sempre encontra uma forma de dar voz à suas personagens. Podemos notar isso na figura excêntrica – única – de Elizabeth Bennet em “Orgulho e Preconceito”, quando ela, opta, de forma clara e objetiva  ir contra os padrões estabelecidos de casamento, comportamento civil e decoro. Também podemos notar as preocupações impostas por Fanny Price, em “Mansfield Park”, quando ela, de forma despretensiosa, indaga à todos ao seu redor acerca das problemáticas sociais, que para muitos, era comum e normal, mas não para ela, ela tinha questões à ser resolvidas e uma história para contar. E claro, o segundo ponto que se destaca nas obras de Austen, é a coragem com a qual ela descreve cenas e cenários, a construção de seus protagonistas não nos parece vir do acaso, na maioria das vezes, sinto como se ela estivesse descrevendo alguém que ela conheceu muito bem, ou talvez, isso seja apenas delírio de minha parte.

O que podemos dizer sobre “A Abadia de Northanger?”. Uma jovem, ávida leitora de romances, acabará interpretando um personagem totalmente fictício que se moverá entre intrigas e segredos terríveis. Inicialmente concebida como uma sátira do romance gótico, ela ultrapassa este propósito e oferece uma pintura social rica e mordaz e um enredo engenhoso com surpresas inesperadas. Catherine Morland, nossa protagonista, é sensacional. Uma obra satírica na dose certa. Nesta nova história, Austen nos convida à conhecer um pouco da divisão existente entre a ficção e a realidade através de sua protagonista. Catherine, é uma jovem não tão bonita, inteligente ou dotada de bons costumes, porém, ela é autêntica em todos os sentidos possíveis. A história narra a visita de Catherine em Bath, com sua família e amigos, lá, Catherine começa uma série de investigações criminosas que foram influenciadas por uma leitura ao qual realizara, intitulada “O mistério de Udolpho”, um livro gótico escrito por Ann Radcliffe e publicado no ano de 1794.

Catherine tem um entendimento incompreensível das intenções dos outros, e uma visão equivocada de que o mundo é como um de seus amados livros: uma aventura romântica com um pouco de gótico popular que o entusiasma. Ela não consegue compreender o raciocínio por trás do comportamento de sua amiga, Isabella Thorpe, e como ela está apenas levando seu irmão junto; ela não consegue entender que o pai de Henry não é um vilão gótico, mas um homem de luto com um temperamento severo: sua visão ficou obscurecida.

“O sangue de Catherine gelou com as horríveis sugestões que naturalmente surgiram dessas palavras. Poderia ser possível? – Poderia o pai de Henry? – E, no entanto, quantos eram os exemplos para justificar até mesmo as mais negras suspeitas!”

Isto é conseguido através de uma narração que é um trabalho de gênio.Austen satirizou as convenções da literatura gótica, escrevendo uma novela semi-gótica que é focalizada através da experiência de Catherine. Catherine é bem lida, mas apenas na medida em que o gênero gótico permite. Isso tem obscurecido sua interpretação dos eventos que ocorrem ao seu redor, consequentemente, a vida para ela tornou-se semelhante às obras de autores como Radcliffe.

Isso significa que no momento em que Catherine chega à abadia, ela espera que seja este lugar de absoluta escuridão e pavor; ela espera ser um castelo gótico e o lar de um vilão gótico tirânico. No entanto, quando o véu é levantado e ela percebe que sua vida não é de fato um livro e as motivações das pessoas nele não são o que ela pensava que fossem, a revelação de como ela foi tola. Eu não vou mentir, me senti como Catherine neste momento; Eu tinha uma opinião ridícula de que, quando levantada, permitia que eu visse o trabalho de Austen pelo que era: brilho total.

Eu amo a abadia de Northanger; é brilhante. Jane Austen é o mestre de seu ofício; seu trabalho é o que ela argumentou que o romance é:

“Apenas alguns trabalhos em que são expostos os maiores poderes da mente, nos quais o conhecimento mais completo da natureza humana, o delineamento mais feliz de suas variedades, as efusões mais vivas de humor e humor, são transmitidos ao mundo nos melhores escolhidos. língua. ”

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SOBRE A AUTORA

Jane Austen (1775-1817) foi uma escritora inglesa, considerada uma das maiores romancistas da literatura inglesas do século XIX, autora de clássicos como “Orgulho e Preconceito” e “Razão e Sensibilidade”. Jane Austen (1775-1817) nasceu em Steventon, Hampshire, na zona rural da Inglaterra, no dia 16 de dezembro de 1775. Filha de George Austen, um reverendo anglicano, e de Cassandra Austen era a segunda menina entre sete irmãos, Cresceu em meio a um pequeno grupo social formado por uma classe abastada e religiosa. Com oito anos de idade, foi mandada para um colégio interno em companhia de sua irmã Cassandra, que se tornou sua melhor amiga por toda a vida. Ainda na adolescência, já mostrava seu talento para as letras. A biblioteca da família era seu lugar preferido quando regressava do colégio interno. Com 17 anos escreveu sua primeira obra “Lady Susan”, uma novela onde expõe as relações pessoais dos que viviam naquele tempo. Em 1797, Jane Austen já havia escrito mais dois romances, “Razão e Sensibilidade” e “Orgulho e Preconceito”. Os textos foram oferecidos por seu pai a um editor, mas foram rejeitados. Em 1801 a família mudou-se para Bath ponto de encontro da aristocracia britânica. Em 1805, após a morte do pai, Jane, sua irmã e sua mãe se mudaram para a vila inglesa de Chawton, onde um de seus irmãos lhes cedeu uma propriedade. Suas obras anteriormente recusadas pela editora, só foram publicadas em 1811 e 1813 respectivamente, sob o pseudônimo de “Uma Senhora”. Posteriormente, as obras se transformaram em clássicos da literatura inglesa.

Blogueiro, escritor, poeta, professor, ensaísta, cinéfilo, viajante e filantropo. Estudante de Ciências Sociais em busca de uma compreensão mais assertiva do nosso local em sociedade.

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