[ENTREVISTA #102] Beatriz Bajo, autora de “A face do fogo”

Beatriz bajo, (37), começou a escrever desde nova, enquanto moradora da cidade do Rio
de Janeiro (RJ), onde descobriu-se uma poetisa e autora nata. Desde
então, dedicou-se às artes, como a música, dança e escrita. Atualmente trabalha
como professora de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira (UERJ) e Gestão
Escolar (FCE-PR), sempre, claro, dedicando-se ao prazer das artes. E hoje compartilha conosco sobre sua trajetória como escritora, vida e prazeres.
1.
A
escrita sempre chega de uma forma inusitada e única na vida dos escritores.
Como isto ocorreu com você? Em que momento de sua vida você percebeu que
possuía dom e aptidão para escrita?
Lembro-me dos livros de poesia em casa, de uma
antologia do Vinícius de Moraes e a perfeição dos sonetos era assombrosa para
mim. Sempre escrevi rimas desde muito pequena, para meus pais…depois, na
escola, para amigos e a fim de, na poesia, preencher a falta de musos e da voz feminina para dançar o
amor. Assim fomos caminhando a poesia em mim e eu…participei de concursos,
levei os poemas pra faculdade, fui incentivada por professores. Na pós, já me
apresentava como poeta. Tomei para mim o que eu era.
2.
Quando
surgiram seus primeiros manuscritos? Sempre teve em mente a ideia de tornar a
escrita um campo profissional?
Aos 12/13 anos. Sempre tive em mente que era
poeta, que era uma necessidade visceral escrever poemas para dissimular os
sentimentos sob as imagens. A escrita de forma profissional era um sonho muito
distante, mas muito querível. No entanto, sempre escrevi e escrevo no sentido não
profissional
, no campo do amadorismo. O significado de “profissional”
soa mal para mim porque a poesia é o caminho à curiosidade, ao diletantismo e
não de aprisionamentos e distâncias causadas pela mecanização com o fim
lucrativo.
3.
? Como
surgem suas ideias e inspirações? O que move você?
Não há rotina nem exercício, infelizmente. Sou uma
pessoa desorganizada, com filho pequeno e correria na vida. A única coisa que
normalmente acontece é ter tempo para leituras e escritas do fim da noite para
a madrugada, quando há noites e madrugadas livres.
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Livro “A face do fogo”, EDITORIAL [E]
4.
 Levando em consideração todo cenário literário
e sua escrita: quais são seus planos para o futuro?
Planos!? Não faço planos. A vida é um livro a
ser lido e escrito e vou assim, observando tudo, sentindo ainda mais,
registrando. Ser lida é um sonho também…O Outro é fascinante.
5.
Quando
ocorreu seu primeiro contato com o universo dos livros? Algum livro ou autor te
motivou iniciar seus próprios manuscritos?
A antologia do Vinícius de Moraes,
foi muito marcante. Poemas da Cecília Meireles, de Drummond sempre… Mas,
escrevia antes da leitura, posso assegurá-lo. Os livros são fundamentais para o
mergulho neste mundo imagético das palavras, no entanto, as palavras são nossos
instrumentos de pertencer ao mundo e interagir com ele. Tudo o que leio (ler
também é ver, ouvir…) me motiva. Algos alavancam o processo, mesclados. Assim como estalos… De repente, ouço (leio,
vejo, cheiro…) algo que me toca como se iluminasse por dentro do
“pensamento/sentimento”… Assim, parto a escrever. Hoje, parece que o mundo
todo já leu Clarice Lispector e, constranjo-me de mencioná-la porque tenho a
impressão que seu entre lugar é
Copacabana no verão, todo mundo já foi ou, ao menos, viu em fotos, mas “Água
viva” ardeu minha pele e alma ao contato. Eu estava cursando a faculdade de
Letras, um amigo me presenteou e acabei monografando sobre essa obra.
6.
Sempre
esteve seguro do que queria? O que te desmotiva quando olha para o cenário
literário atual? E o que te motiva?
Sempre. Queria o que tinha, nasci com essa
falta. Ahh, é triste o poema ser menos importante do que o poeta, valer menos
do que uma assinatura ou um nome. Todos os eventos, concursos, prêmios, do mais
mequetrefe ao mais pomposo, todos servem para levantar a bola já levantada do
jogador. Quem está no banco, fica pra sempre no banco. No entanto, isso é
motivo para escrever também e permanecer entre.
7.
O que
você faz quando surge uma ideia de escrita no meio do nada (no trem, ponto de
ônibus, faculdade, fazendo compras e etc)?
Sempre carreguei caderno e caneta na bolsa.
Hoje, tenho celular com Word e gravador de voz, que é muitíssimo prático.
Depois, só transcrever!
8.
Quando
você decidiu que iria profissionalizar sua escrita? Quais foram seus medos ao
lançar seu primeiro livro? O que te motivou (e motiva) a continuar escrevendo?
Não decidi profissionalizar. Sempre decidi que
queria ser lida. Nesse sentido, queria ser publicada por um editor que eu
respeitasse. Assim se deu. Quando mandei meu primeiro livro, Vanderley Mendonça
já tinha ouvido falar de mim, topou na hora. Eu não imaginei que seria tão
simples, achei que levaria uma vida toda para ter um livro meu chegando pelo
correio, todo lindão. Depois disso, descobri que publicar é algo muito fácil
mesmo…o difícil é distribuir o livro, fazê-lo chegar até as pessoas. Ainda
hoje não aprendi essa lição. Também nunca tive medo, hoje tenho muito mais. O
senso crítico é mais intenso conforme o tempo passa. Hoje, arrependo-me de
muitos versos, até de poemas… No entanto, era o que eu era. Não é o que sou.
Isso basta para me conformar. O que me motiva é viver, estar aqui.
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Beatriz Bajo, Ed. Patuá (2017)
9.
Pretende
lançar uma nova obra dentro do mesmo gênero literário ou pretende explorar
novos horizontes?
Gostaria muito de passear por outras formas
(gêneros?) de escrita, mas, confesso, é muito difícil para mim. Sofro de
abreviamentos intensos.
10.
 O que mais te irrita na hora da escrita?
A falta de tempo para tal. O tempo está escasso
para o silêncio e a solidão. Isso me irrita muito. Se bem que muitas vezes
escrevi na multidão alvoroçada…acho que outro foco tem me exigido mais.
11.
  De onde vêm os personagens? De alguma forma
se relacionam com alguém que conhecem?
Mesmo os poemas possuem personagens, acredito.
Também escrevi algumas prosas poéticas…essas, sobretudo. Sim, pessoas que
conheço, que imagino ou eus
desdobrados.
12.
Qual é
a sensação de ir a uma loja e encontrar um livro vosso à venda?
Não me causa uma sensação inquietante. A seção
de poesia é sempre escondida, se meu livro estiver lá, poucos verão, ou
ninguém. Arrebatador mesmo é encontrar alguém lendo seu livro. Isso sim é
extraordinário!
13.

conheceu/encontrou alguém que leu uma de suas obras? Como foi a experiência?
Já. Acho bárbaro! Sobretudo quando não entendem
nada (é o que normalmente dizem: é bonito, mas complicado). Seria interessante
ser simples…acho espantoso alguém simples e bom. Eu não sei fazer isso.
14.
Você
elabora um roteiro para seguir e desenvolver a criação de seus cenários e
personagens ou você simplesmente escreve e deixa fluir?
Segunda opção. Fluir com ritmo, fluir com
suingue.
15.
Você
considera primordial dedicar-se sem cessar na escrita de um livro? Você possui
uma rotina de escrita?
Alguns livros foram intensos assim do início ao
fim. Considero-os mais coesos, acho-os melhores que os demais. Não possuo
rotina.
16.
Gosta
de trabalhar em silêncio absoluto ou prefere ouvir música enquanto trabalha?
O silêncio absoluto é o de dentro. Esse considero
fundamental para trabalhar com palavras. Do lado de fora, tanto faz.
17.
Como
você se vê daqui a dez anos dentro do cenário literário?
Não tenho esse poder de projeção. Não consegui
imaginar meu casamento, meu filho, minha casa. Tenho planos opacos neste
sentido. Vejo com cores e sentimentos bons, sem formas. Sempre me enxergo EM e
não COMO.
A AUTORA
Autora do livro de poemas Sobre nossas línguas a carne das palavras (Patuá, 2017), BEATRIZ BAJO (São Paulo/SP, 1980). Poeta, diretora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são domingos em nós (Rubra Cartoneira Editorial: PR, 2012), : a palavra é (Atrito Art e Kan: PR, 2010) e a face do fogo (Annablume: SP, 2010). Traduziu os livros Respiración del laberinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro, pelo Coletivo Dulcinéia Catadora (2009) e uma novela, também mexicana, pela editora LetraSelvagem ainda não publicada. Esteve com um verso na mostra POESIA AGORA, do Museu de Língua Portuguesa (jun/dez 2015). Participa de antologias e revistas. Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/). Morou por 17 anos no RJ e vive há 10 em Londrina-PR.
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Blogueiro, escritor, poeta, professor, ensaísta, cinéfilo, viajante e filantropo. Estudante de Ciências Sociais em busca de uma compreensão mais assertiva do nosso local em sociedade.

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