[ENTREVISTA #97] Quatro perguntas para Maya Falks sobre sua obra “Histórias de minha morte”

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Foto: Angela Nadin | Divulgação



ENTREVISTA DE MARIANA BELIZE COM A AUTORA MAYA FALKS
1. Por que uma narradora negra, se você é branca e nunca
passou por nenhum episódio de racismo na vida?
Devolvo com a mesma pergunta: por que não? A figura negra na
literatura é sub-representada. Não no sentido de personagens ruins, mas no
sentido de ausência mesmo. Temos uma população de maioria negra com uma
representatividade que beira o insignificante na literatura, e ainda assim o
que engrossa o caldo das personagens negras na ficção são as obras de época com
escravos. Se temos em nosso convívio direto pessoas negras, por que é tão
incomum que eles apareçam em nossas histórias? A ausência da negritude na
literatura produzida por pessoas brancas não faz nenhum sentido, é impossível
fazer um retrato social – mesmo que ficcional – sem incluir pessoas negras.
Para além disso, a escolha de uma mulher negra como
narradora se deu de forma tão natural quanto seria pra mim, como artista,
colocar uma narradora branca. Eu, Maya, nunca sofri racismo, mas não sou eu no
livro. Eu sou um canal por onde a história passa. Meu cérebro assimila a
realidade ao meu redor e dá a ela um significado, minha mão executa, é assim que
nasce uma história. Minha persona é irrelevante no processo criativo. Quando
estou escrevendo, quem conta é a personagem, e a personagem sabe do que está
falando. O acervo para falar de racismo não vem de mim, por óbvio, mas desse
mundo que me cerca. O racismo está em todos os lugares, eu, Maya, só precisei
fazer o exercício fundamental a qualquer artista: abrir as barreiras da mente e
deixar o mundo entrar.
Acho
natural que as pessoas estranhem uma branca dando vida a uma negra em seu
livro, mas acho triste. Sinal de que ainda causa estranhamento que um ser
humano escreva sobre outro porque sua cor é diferente. Meus personagens são
sempre amplos, tridimensionais, todos tem vida própria, todos estão além de mim
e são muito maiores que eu. Falo por eles porque eles não existem no mundo
material, mas a história deles não é minha, eu sou apenas um canal.
2. Por que fazer o livro em primeira pessoa? Não seria
apropriação?
A primeira pessoa foi uma necessidade porque a história se
passa, em linhas gerais, dentro da mente dela. Não faria nenhum sentido um
narrador externo contando a história dela porque não traria o peso de seu
relato. É a voz DELA que tem que ser ouvida – ou lida, no caso -. Além de que,
abstraindo um pouco mais, seria injusto entregar a história a um terceiro, já
que a história a pertence. E tudo é contado do ponto de vista dela, seria
impossível esse efeito na voz de um narrador externo.
Sobre
apropriação, é. Se formos falar em linhas gerais, toda literatura é uma
apropriação. Porque é meu nome que está na capa, porque sou eu respondendo essa
entrevista, porque é a minha foto que está na orelha. Mas a história, por mais
que seja criada por mim, não é minha. Eu não a vivi, e não vivi nenhuma outra
que eu já tenha escrito. Então sim, eu me aproprio de histórias que não vivi
para escrever.
Mas ao mesmo tempo, eu devolvo a ela. É ela quem conta sua
trajetória, seus medos, seus traumas, suas dores. Eu preciso me divulgar porque
o Histórias de Minha Morte é uma obra entre outras que já escrevi e ainda irei
escrever, mas tenho tido sucesso em associar esse livro completamente à
Leandra. Tanto que é comum que leitores me marquem em fotos do livro recém
comprado dizendo “Leandra chegou”.
No fim das contas o que as pessoas precisam compreender,
independente de que tipo de personagem eu criei, é que o artista é um filtro,
um canal, uma ferramenta. Não produzo autobiografias, logo, tudo o que eu
escrevo é uma apropriação da vida alheia, mesmo que, no meu caso que não sou
biógrafa, essa vida só exista nas páginas do livro.
3.
Acha que seu livro é uma obra de denúncia contra o racismo?
Não. Creio que ele pode ser usado como ferramenta de
conscientização sim, vejo a arte como um importante aliado das revoluções, das
mudanças sociais e minha literatura, de modo geral, traz muito essa exposição
do feio, do deplorável, daquilo que as pessoas tentam não enxergar no
cotidiano. Gosto da ideia de usar a arte como um “escancarador” daquilo que a
gente tenta fingir que não vê. Porém, não acho justo que um livro de ficção
seja visto como uma denúncia contra o racismo quando na vida real tem pessoas
reais, de carne e osso, sendo discriminadas, feridas ou até mortas pelo racismo
nesse exato minuto.
Se o livro ajudar a fazer as pessoas enxergarem esse
problema, melhor, mas eu gostaria que elas enxergassem as pessoas reais. Elas
precisam de uma mudança social pra ontem, a Leandra não.
E
isso vem acontecendo, inclusive. Já recebi agradecimentos de pessoas negras por
ter exposto tudo isso no livro; um dos momentos mais emocionantes da minha vida
foi quando uma moça negra veio me mostrar seu braço recém tatuado: ela tatuou
Leandra e uma frase do livro. Me emociono profundamente com isso, é o tipo de
coisa que comprova que me abri de verdade para a realidade e deixei Leandra
falar. Também já aconteceu várias vezes de pessoas brancas me procurarem de
olhos arregalados dizendo “eu não fazia ideia”. Agora faz, o primeiro passo
para solucionar um problema é admitir que ele existe.
4. Como foi o contato com as mulheres negras que partilharam
suas histórias para que você escrevesse?
Começou na infância, na verdade. Venho de uma família que
não me ensinou a discriminar. Eu era a gorda da turma e era discriminada e
isolada por isso. Nessa época minha melhor amiga era uma menina negra e eu não
sabia que ela vista como diferente pelos demais colegas, porque eu não via nada
de diferente nela. Ela era uma menina linda e querida, e ela me tratava bem, só
isso me importava. Perdemos contato quando troquei de escola exatamente porque
eu não suportava mais o bullying, as humilhações diárias. Anos mais tarde ela
concorreu em um concurso de beleza e foi vítima de racismo. Sou da serra
gaúcha, uma terra predominantemente branca por causa da imigração – eu mesma
sou descendente de alemães e italianos – então a entrada dela no concurso
causou reação da cidade, e a reação da cidade contra a minha amiga linda causou
uma reação em mim.
Criei
uma aversão absurda ao racismo porque aquilo me afetou. Sou muito sensível às
dores alheias, quando a dor é de alguém que eu gosto, a coisa piora. Lembro que
senti uma dor profunda quando vi a forma como as pessoas estavam tratando ela,
e não consigo imaginar a dor que ela sentiu por isso tudo. Queria poder fazer
algo por ela, eu queria que aquele absurdo acabasse imediatamente. Eu me sentia
um tanto quanto idiota por não ter enxergado isso tudo antes.
Passei a prestar mais atenção ao meu redor, porque até então
eu era a menina gorda que já tinha apanhado na escola, que era isolada,
humilhada, que tinha enfrentado violências muito piores inclusive, mas eu não
tinha a noção exata de que outras pessoas, com outras características, passavam
por tudo isso também, e passavam por coisas ainda piores do que os horrores que
eu senti na pele. Se pra mim, que vivo uma série de privilégios, era horrível,
imagina como é pra quem não os tem?
A partir desse ponto eu fiz o que todo mundo deveria fazer:
eu ouvi. Não fiz uma pesquisa formal para escrever o Histórias, mas comecei a
me envolver com o movimento negro ainda na adolescência, sabendo bem o meu
lugar ali, como apoiadora. Com o advento das redes sociais, comecei a buscar
mulheres que encontraram espaço e voz nesses meios para ouvir o que elas tinham
a dizer. Eu ouvi, assimilei, deixei que suas dores e histórias entrassem em mim
– e nada disso pensando em escrever um livro, eu não tinha esse planejamento
até, literalmente, o dia que comecei a escrever. Um dia, depois de mais de uma
década como ouvinte, Leandra pediu licença e veio ao mundo.
Nada do que está no Histórias é inverossímil. Tudo,
absolutamente tudo foi, de uma forma ou de outra, inspirado na realidade. Essa
inclusive é a parte mais triste disso tudo. Eu realmente, do fundo do meu
coração, queria que o Histórias fosse uma simples história de ficção.

Blogueiro, escritor, poeta, professor, ensaísta, cinéfilo, viajante e filantropo. Estudante de Ciências Sociais em busca de uma compreensão mais assertiva do nosso local em sociedade.

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